terça-feira, 8 de setembro de 2009

O Deus Transgênero




26. Deus disse: “Façamos o ser humano à nossa imagem e segundo nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todos os animais selvagens e todos os animais que se movem pelo chão”.
27. Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem (macho) e mulher (fêmea) ele os criou.
28. E Deus os abençoou e lhes disse: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que se movem pelo chão”.




Gênesis 1:26-28, Bíblia da CNBB

Este trecho transcrito acima é parte de um dos dois relatos da criação contidos no nosso atual livro de Gênesis. Infelizmente a Igreja evangélica, com sua política de emburrecimento do povo, tenta ocultar a realidade sobre a história e as origens das Escrituras, fazendo parecer que elas cairam dos céus prontinhas, com encadernação e tudo. Mas, como Igreja Inclusiva, não podemos repetir o modelo de igreja que nos oprime e que emburrece, pelo contrário, esse modelo nós lançamos no lixo, que é o lugar ideal para todo tipo de porcaria e imundícia.

Mas, voltando ao assunto proposto, Gênesis 1:26-28 é original das Fontes Sacerdotais, ou Fontes "S", diferentes das do outro relato da criação, aquele onde Deus cria a mulher de uma costela do homem (Gênesis 2:7, 18, 21-23); primeiro criando o homem, depois a mulher. Este segundo relato é originário de fontes javistas, ou Fontes "J". Os relatos foram condensados ou agrupados como um livro único muito tempo depois da escrita original (Séculos VI-V a.C), se é que na realidade existiu uma escrita original. Pois, hoje é amplo o debate que afirma que dentro das Fontes Originais ("J", "E" e "S"), há inúmeras outras fontes primitivas e cujas origens talvez jamais serão conhecidas.

Eu sou apaixonado pelo primeiro relato da criação, incomparavelmente mais que pelo segundo. Nele consigo observar um Deus que não faz distinção entre homem e mulher, e que os cria no mesmo momento, sem primazia entre os dois. Não há preeminência no primeiro relato. Mas, o maravilhoso não é somente isso, mas também a revelação de que "macho e fêmea os criou, à sua imagem os criou" (vers. 26). No outro relato é o homem, e somente ele, a imagem de Deus, e não a mulher (conf. 1 Co. 11:7-9 e a pseudo epístola paulina de 1 Tm 2:13).



Sim, o Deus que os antigos hebreus criam era um "homem", antropomórfico, pois o segundo relato da criação (de origem "J") prevaleceu em detrimento da beleza do primeiro relato. Neste, além de não haver primazia, Deus se revela muito mais belo em sua essência como "Homem e Mulher", "macho e fêmea", no mesmo ser, revelando a unicidade e o amor que não se divide, mas que permanece Uno, indiviso, mesmo em Sua face materna e paterna.

Como teria sido maravilhoso que a imagem prevalescente entre os hebreus e depois entre os cristãos fosse desse Deus Transgênero, que é ao mesmo tempo "macho" e "fêmea", e de cuja imagem nasceram os humanos. Tenho certeza que menos fogueiras teriam sido acesas na Idade Média para queimar mulheres e homossexuais. Menos mulheres teriam sido violentadas e destituídas de sua dignidade e ao menos alguns homossexuais ou transgêneros teriam suas vidas poupadas pela Igreja ou pela sinagoga judaica. Se o "deus" dos religiosos tivesse sido muito mais Mãe do que Pai, ou ao menos tanto Mãe quanto Pai, a história no ocidente teria sido outra.



Pelo menos se tivessem castrado a imagem construída do deus judaico-cristão teríamos tido muito menos sofrimento ao longo da história, sinto eu. O falo é o grande mau que os religiosos imputaram ao Deus de amor, violentado-o em sua natureza que transcende o sexo, que está acima dele.

Eu pessoalmente quero essa imagem do Deus de Abraão, a imagem de um Deus Transgênero. O Mito do primeiro relato me revela muito mais do amor de Deus do que o segundo relato mitológico. Um Deus sem pênis, ou ao menos com "pênis" e "vagina" ao mesmo tempo, é muito mais equilibrado e amoroso.

A falta de um Deus maternal fez os cristãos sentirem falta de uma "mãe", e dá pra explicar amadoramente o porque de terem tomado para si o amor das deusas-mães na pessoa da Virgem Bendita. Coube à serva Maria o papel que era de Deus nessa história toda. Dá pra entender o porque da paixão dos católicos pela pessoa da mãe do Senhor.
Mas não precisava ser assim. Não precisamos de uma "mãe" fora de Deus. Nele encontramos Mãe e Pai (meros eufemismos e atropomorfismos, sim, creio eu), pois foi assim que ele quis se revelar para a nossa mente limitada. O próprio Verbo, Jesus Cristo, deu o exemplo disso, comparando-se à galinha que ampara os pintinhos em seu cuidado materno (Lc. 13:34) e realizando atribuições femininas, como lavar os pés dos discípulos (João 13).

Um Deus Transgênero em sua Imagem, ou ao menos um Deus menos "macho" e mais "fêmea" nos revelam muito mais do Seu Amor do que o Deus fálico e patriarcal que venceu na história da igreja, uma história de tirania, opressão e morte.

Da próxima vez que você olhar para um transgênero, tente não o condenar (coisa comum inclusive entre os próprios homossexuais), mas observe a face de Deus nestas pessoas. Pois, tais pessoas, assim como Deus, superaram os limites e definições dos sexos. Isso não importa mais, nem para eles, nem para Deus, que é, ao mesmo tempo, "macho e fêmea". (Gn 1.27)




Luiz Gustavo.
servo.


5 comentários:

Reverendo Márcio Retamero disse...

Gustavo, gostei muito do texto! Ousado, corajoso e desmistificador, como deve ser mesmo a igreja inclusiva e uma teologia que se pretende inclusiva! É uma desgraça o que o patriarcalismo judaico fez com as Escrituras Judaicas; legado que nós cristãos acabamos recebendo quando da união das Escrituras Cristãs com as Judaicas. Paulo, escreveu: não há homem e mulher, escravo ou livre... este é o cristianismo autêntico! Precisamos re-significar Deus e tudo o que foi dito dele desde a "patriarcalização" das Escrituras. Parabéns!

Comunidade Betel sob a ótica de Darilton. disse...

Adorei o texto, certamente tudo seria melhor se a humanidade tivesse essa mesma visão de um Deus Transgênero.
Abração!
Darilton.

Anônimo disse...

Acho que você deveria ler a biblia direito!!!
quando Deus afirma que criou o homem a sua imagem e semelhança ele se refere ao homem "ser humano"e não ao homem "sexo masculino"...isso não significa que Deus é transgenero e sim que Deus é superior ao que possamos pensar ou imaginar... e oro para que Ele em sua superioridade tenha misericórdia da sua vida!
Sei que o senhor não irá permitir a publicação deste comentário, mas a minha sincera intenção é que o senhor leia e reflita.
que Deus lhe abençõe

Anônimo disse...

Sr gustavo,pare para imaginar!se não existisse amor entre dois seres de sexo oposto,vo
cê existiria hoje? Se só tivesse homem na face da terra com
o haveria a procriação? Me dite nessas perguntas! Va e não peques mais!isso que não e acepção de pessoas!sem ofensas !

Fagner disse...
Este comentário foi removido pelo autor.